Olho a minha volta e os objetos me observam. Eu os conheço. Eles me conhecem. Livros, bibelôs, cadernos, sapatos, revistas, potes, roupas. Essa infinidade de objetos que ganhei ou comprei, me levam numa viagem para um passado cheio de recordações.
Quando chegaram, frescos de juventude, me trouxeram alegria. Eram úteis. Tinham uma finalidade ainda que fosse apenas a de ser lindos. Para os olhos e para a alma. O tempo lhes tirou o viço. Continuam nos mesmos lugares. Os que estão à mostra recebem uma limpeza feita por mão distraídas. Outros, nem isso. Esquecidos em armários e gavetas, cheiram a mofo, empoeirados.
Para onde vão as coisas que acumulamos? Se espalham por toda a casa, ocupam cantos e esquinas. Fora de uso, se entristeceram. Perderam a cor, a utilidade. Mas nós os mantemos cativos de nosso desejo ou de nossa indiferença. Às vezes são tantos que se espalham pelas superfícies das mesas, cadeiras, camas e até do chão. O ar fica pesado. A casa fica pesada. A vida fica pesada.
Nos aflige o fato de não darmos conta de cuidar de tudo aquilo. E porque não damos conta, nos convencemos de que está tudo bem. De que ter uma casa cheia de coisas que não servem mais, é normal. No fundo, sabemos que no momento em que a verdade vier à luz, teremos que tomar uma atitude. O fato de deixar para lá, não resolve. Adoecemos. O ar da casa fica poluído. A poeira e o mofo invadem as nossas vidas de forma incalculável.
Penso que a pergunta que não queremos nos fazer é: Por que guardo tudo isso? Que papel esses objetos tem na minha vida? Pois são exatamente essas perguntas que precisam ser feitas.
Nós humanos temos uma relação com os objetos, que não necessariamente é correta. Para que serve um sapato? Para ser calçado. Se você não o usa para esse fim, ele não tem mais utilidade. Não importa se você ganhou do seu pai, de sua mãe ou comprou com seu primeiro salário…a função dele é a mesma. Por isso acumulamos. Por carência. Por transferir emoções e afetos à objetos inanimados.
O medo de perder, de ter pouco; a impressão de nunca ter o suficiente está muitas vezes ligada ao acúmulo. Guardamos objetos que, além de velhos e sem função, impedem a chegada do novo. Não necessariamente de objetos novos, mas de uma vida nova. Uma vida onde possamos dar valor a Ser e não Ter. Uma vida onde possamos dar valor ao abraço que recebemos quando ganhamos aquele sapato, e não ao objeto em si.
Transferimos para os objetos a emoção que tivemos quando os ganhamos, ou compramos: a boneca da nossa infância, a primeira roupinha dos nossos filhos, o conjunto de travessas que ganhamos de uma amiga que já se foi. Nos abraçamos a eles como se pudessem nos trazer de volta aqueles sentimentos, aquele momento.
Claro que algumas coisas são muito importantes e iremos guardar com carinho por toda a vida. Mas será que precisamos guardar tudo?
Para onde vão as coisas que acumulamos? Para o mundo real.
Olhe para os objetos espalhados pela casa com olhos indagadores: Isso precisa estar na minha casa? Eu o amo a ponto de mantê-lo limpo e em boas condições? O valorizo a ponto de segurá-lo nas mãos, ou usá-lo pelo menos uma vez a cada seis meses? Ou o deixo esquecido em caixas, gavetas e porões? Que tal cortar um pedaço da colcha de crochê que foi de sua avó fez, que já está toda desfiada, e transformar em um quadro? Traga para a luz aquilo que você ama.
Deixe entrar o novo, guarde o antigo que realmente importa, mantenha apenas o suficiente. Corte as amarras que te prendem ao passado. Deixe sua casa respirar. Seja feliz!

